Uma leitora se pergunta de onde vem o dinheiro que o Fed, o banco central americano, está usando para resgatar os créditos podres do mercado. Ora, do poder dos Estados Unidos. Graças à condição americana, ainda, de maior superpotência, a única com projeção de poder militar nos quatro cantos da terra, o dólar continua sendo a moeda internacional de reserva _não há competidores à altura, por enquanto. O Fed pode imprimir enquanto a demanda mundial por ela permanecer forte. Se a procura diminuir, e o valor do dólar continuar a despencar, o ajuste interno terá que ser mais forte.
É por isso que o americano Kenneth Rogoff, que foi economista chefe do FMI, diz temer, em artigo publicado ontem na "Folha de S. Paulo", que o custo de salvação do sistema financeiro "suba a território ainda mais elevado" _"uma grande expansão na dívida imporá imensos custos fiscais aos EUA e, por fim, prejudicará o crescimento por meio de uma combinação entre impostos mais altos e gastos mais baixos. E certamente tornará mais difícil aos EUA manter seu domínio militar, um dos pontos de apoio do dólar".
Pedimos desculpas aos nossos leitores. Primeiro a Bolívia, depois a crise econômica que andou nos consumindo aqui em Mundo também...
Acabei de perder um bom tempo lendo as propostas econômicas de ambos os candidatos. Já esperava encontrar pontos vagos em ambas, e tenho dúvidas de como Obama fará para injetar tanto dinheiro quanto promete na economia dadas as atuais circunstâncias.
Mas o programa de John McCain _que, aliás, não conseguiu manter um discurso coerente sobre a crise desde que ela se agravou_ é mais do que abstrato. Com exceção da idéia de cortar impostos e refazer o caixa enxugando o Estado, lição número 1 da cartilha republicana, as propostas se resumem a criar comissões para dar sugestões e a dizer que apóia isso ou aquilo, mas não como fará. Em muito me lembrou o programa político do Ciro Moura, um candidato nanico a prefeito de São Paulo que lista uma série de nomes de projetos, sem explicá-los, e no fim, para a área de Cultura, emenda apenas: Cultura, eu apoiarei. Como assim, cara-pálida??
Em um momento em que acaba de ruir o pilar-mor da economia americana, o crédito, é de dar medo o desamparo em que os candidatos, sobretudo o governista, deixam seus eleitores.
A média das pesquisas continua na mesma, com ligeira vantagem para Obama. A novidade do dia é que agora 5 das 9 pesquisas compiladas pelo Real Clear Politics indicam vantagem de Obama, e 4, empate absoluto entre o democrata e John McCain _cenário inverso ao da semana passada. Eis os números agregados entre os últimos dias 9 e 18:
Barack Obama - 47,3%
John McCain - 45,2%
Na projeção do Colégio Eleitoral segundo pesquisas estaduais, McCain leva vantagem pelo RCP:
Barack Obama - 202 (157 "consistentes" e e 45 "tendência")
John McCain - 216 (157 "consistentes" e e 59 "tendência")
Indefinidos - 120
No Pollster, onde o democrata liderava, o republicano passou à frente _mas com menos votos "consistentes":
Barack Obama - 202 (164 "consistentes" e e 31 "tendência")
John McCain - 208 (137 "consistentes" e 71 "tendência")
As sucessivas falências e estatizações bancárias nos Estados Unidos são manchete no mundo inteiro há cinco dias, e Bush ainda não tinha aparecido. O mais manco dos patos mancos fez hoje um curto pronunciamento sobre a crise econômica. Vale a pena reproduzir o primeiro parágrafo da reportagem que "The New York Times" postou agora em sua página na web:
"Na quinta-feira, o presidente falou.
Foi breve, dois minutos. Sua sobrancelha estava franzida, e suas palavras foram cuidadosas: 'O povo americano pode estar certo de que continuaremos a agir para fortalecer e estabilizar nosso mercado financeiro e melhorar a confiança dos investidores'. Então, sem oferecer nenhum detalhe, ele mais uma vez deslizou para fora da vista do público."
O link para quem quiser o texto completo, em inglês.
Muita coisa do que aconteceu nas duas últimas semanas na eleição americana pode ser explicada pela pesquisa do "New York Times", que derruba vários mitos e mostra o que ficou de fato na cabeça do eleitor sobre a mudança de foco da campanha republicana (pouca gente acredita que McCain represente de fato mudança, por exemplo, e Obama cresceu entre as eleitoras brancas, apesar do fator Palin). Para mais, escrevi um post com vários detalhes, aqui.
Isso também explica por que hoje a média de pesquisas já refelete melhor o empate/impasse eterno que divide ideologicamente os EUA em duas metades. Obama voltou a assumir uma liderança tímida, dentro da margem de erro, na média de pesquisas. McCain, por sua vez, também mantém uma liderança tímida no Colégio Eleitoral (tudo de acordo com o Real Clear Politics).
Média entre os dias 10 e 17 deste mês:
Barack Obama - 47,3%
John McCain - 45,1%
No Colégio Eleitoral, onde são precisos 270 votos para vencer:
Obama - 212 (157 sólidos/ 55 tendência)
McCain - 216 (157 sólidos/ 59 tendência)
Indefinidos - Já pelo Pollster, que dá como desempatado um Estado onde a diferença a favor de um candidato supere 3 pontos (o RCP exige 5), Obama lidera:
Barack Obama "me" escreveu (se você se cadastrar no site oficial, ele escreve para "você" também; McCain idem). Disse para que eu procure o QG de sua campanha em Nova York, porque a partir de lá sairão ônibus para a Pensilvânia, um Estado próximo, onde a projeção é de disputa acirrada, com provável leve vantagem para Obama. A missão do expresso obamístico é "evangelizar" os eleitores indecisos.
Dei a sorte de ver hoje, aqui em Manhattan, um rapaz saindo do prédio da editora que publica a "New Yorker" com uma capa certamente inédita da revista, com charge de John McCain, em versão rechonchuda. Imagino que seja a capa da próxima edição. Enquanto ela não chega às bancas, seguem abaixo duas ótimas imagens da "New Yorker" que satirizaram as eleições deste ano.
Nesta, de março, Hillary Clinton e Barack Obama estão juntos na cama, em uma referência ao anúncio de TV no qual ela questionava qual dos dois estaria pronto para atender ao telefone na Casa Branca de madrugada.
Nesta ilustração, de julho, o casal Barack e Michelle Obama aparece como seus opositores dizem que eles são (terroristas, antipatrióticos, etc). É a capa de revista mais polêmica da temporada presidencial.
Depois de meses apontando Barack Obama como favorito, e dias apresentando John McCain à frente, o site agregador de pesquisas Real Clear Politics fechou a quarta-feira com empate. Assim como a disparada de Obama após a Convenção Democrata foi diluída nos dias seguintes ao evento partidário, isso também acontece agora com John McCain. Por outro lado, como a margem de erro das pesquisas gira entre 2 e 3,5 pontos percentuais, a disputa quase sempre esteve na zona do empate técnico.
Gráfico do site agregador de pesquisas Real Clear Politics; na lupa, o auge da vantagem de Obama logo após a Convenção Democrata, o auge da vantagem de McCain após a Republicana, e o campo embolado novamente
As pesquisas de preferência nacional são importantes para aferir a tendência de voto, mas no final das contas o que vale mesmo é o Colégio Eleitoral.
Pesquisa publicada nesta noite pelo "New York Times" junto com a rede de TV CBS põe na berlinda alguns mantras entoados na bolha política americana nas duas últimas semanas, na rabeira da Convenção Republicana.
O levantamento, até agora, é o mais completo da série no que toca a imagem dos candidatos (que, segundo já disseram assessores republicanos, pesará mais do que plataformas políticas neste ano) e foi feito entre sexta e terça-feira _depois do choque de realidade causado pela falência do quarto maior banco de investimentos dos EUA e pela compra do terceiro.
Na atual fase pega-pra-capar em que se encontra a disputa eleitoral nos EUA, a campanha do republicano John McCain se aferrou a dois lemas: 1) a mudança real é ele (este afanado desavergonhadamente da campanha rival); 2) Obama não tem noção do que o povo de verdade quer, já que ele é um elitista comedor de rúcula que passou a vida enfurnado em livros e não tem idéia de como seja a "América real".
Pois bem: os números no "Times"/CBS, com base em entrevistas com 1.133 adultos (1.044 deles, eleitores registrados) e margem de erro de 3 pontos em ambas as direções, mostram que nem um nem outro pegou para valer.
O primeiro já era de se esperar, posto que o senador republicano tem 72 anos e passou metade deles em Washington. Por mais que se admire sua carreira, é difícil identificá-lo com "novidade". Ao menos, é isso que mostra a pesquisa, na qual 59% responderam "não" quando indagados se acreditavam que McCain levaria mudança real a Washington e 57% disseram que ele é "um republicano típico" (65% acreditam que Obama represente mudança.) Aliás, a força de McCain mora exatamente na experiência: 71% o consideram preparado para governar os EUA, contra 48% de Obama (é bom lembrar que mais gente acha o democrata preparado do que despreparado _estes somam 46%).
O segundo é mais surpreendente, já que o tal "elitismo" do democrata sempre foi um fantasma rondando a campanha obamista. O levantamento afirma que 57% dos americanos se identificam com Obama (o placar de McCain é de 47%) e 60% acham que o senador por Illinois entende seus problemas (contra apenas 48% para McCain). É uma pergunta crucial em um país no qual muitos analistas acreditam que o atual presidente tenha sido eleito por ser mais amigável que o rival, por ser um cara mais "convidável" para uma cerveja.
Além dos dois lemas, outra medida republicana foi convocar uma mulher conservadora para atrair o voto de... bem, mulheres (que estariam decepcionadas porque Hillary Clinton não obteve a candidatura democrata) e conservadores (desconfiados com o histórico de busca do consenso bipartidário ostentado por McCain), independentemente de sua falta de credenciais para o emprego mais importante do mundo.
O que a pesquisa diz é que, no intervalo de um mês, Obama saltou de um apoio de 42% para 54% entre as mulheres, enquanto McCain caiu de 47% para 38%. Entre as mulheres brancas houve movimento ainda mais amplo: o democrata foi de 34% para 47%, e o republicano escorregou de 53% para 45%.
Já a percepção sobre Palin não é exatamente o que sonham os marqueteiros republicanos. Apenas 17% dos eleitores acham que ela foi escolhida por causa de suas qualificações, contra 75% que acham que foi para ajudar McCain a ser eleito (contra respectivamente 57% e 31% dos democratas no que toca a seleção do senador veterano Joe Biden por Obama).
A pesquisa também mostra que não são só os liberais ateus desdenhosos dos valores americanos que perdem o sono com a possibilidade de a ex-Miss Wasilla assumir a Presidência: 32%, ou um terço, dos eleitores de McCain dizem estar preocupados com Palin _contra apenas 10% dos democratas que levam as mãos à cabeça com o desbocado Biden. No eleitorado em geral, as preocupações com a vice republicana saltam para 62% (contra 24% com o democrata). Se ambos ficarem exatamente no cargo a que se propõem, de vice, 52% dos eleitores acham Palin inepta, contra 11% que acham Biden despreparado.
Ah, detalhe: 55% do eleitorado diz se identificar com Palin, percentual ligeiramente inferior ao de Obama. A qualidade principal da candidata, segundo os eleitores, é "ser mulher", citada por 7% deles (15% mencionaram "experiência" no caso de Biden).
Ainda assim, Palin cumpriu muito bem a tarefa de injetar ânimo na campanhado partido governista: 69% dos eleitores de McCain se dizem entusiasmados com sua escolha para vice, e 27%, satisfeitos, contra respectivamente 27% e 58% dos democratas sobre Biden. Mais, ela conquistou 25% dos que se diziam eleitores de Hillary nas prévias democratas, o que não é pouca coisa (mas aí estão incluídos republicanos que votaram nas primárias do partido rival). Pode ter ajudado o fato de Palin ter aparecido em 53% das notícias políticas entre 8 e 14 de setembro, como mostra este estudo do Centro para Excelência em Jornalismo do Pew Research Center.
No geral, Obama está com 48% dos votos, contra 43% de McCain _uma acomodação nos patamares pré-convenções.
Se Michelle Obama chegou à lista de bem vestidas, é a republicana Sarah Palin que movimenta os caixas.
Os óculos envergados pela vice de John McCain são alvo de cobiça mundial: a fabricante Masunaga Optical, japonesa, diz ter vendido mais exemplares do modelo MP704 em duas semanas, após a governadora do Alasca surgir para as câmeras, do que em todo o ano passado. Se tomados apenas os pedidos americanos, a demanda decuplicou.
A armação, que Palin tem em cinza, saiu da prancheta de Kazuo Kawasaki e é vendida nos EUA por US$ 323 (R$ 604) _ou pelo menos era, antes de virar objeto de desejo.
(AP) Palin e seus óculos hype, que a ajudam a ver a Rússia a partir do Alasca
Evocando Jackie Kennedy Onassis, a revista de fofocas People colocou Michelle Obama na lista das dez "estrelas" mais bem vestidas, ao lado da modelo Heidi Klum e de queridinhas dos estilistas como as atrizes Gwyneth Paltrow e Sarah Jessica Parker.
Os looks escolhidos para apresentar cada listada nem sempre são dos mais felizes, mas cá está a lista para quem quiser conferir.
Embora o debate sobre a candidatura de Sarah Palin à Vice-Presidência americana tenha inicialmente se perdido em um sem-número de questões culturais, morais, sociais e até de personalidade, o real problema está em seu despreparo. Foi para ele que a imprensa americana acordou na última semana, após Palin dar sua primeira entrevista como candidata.
É fato que boa parte dos americanos se encanta e se indentifica com a simpática mãe de cinco que começou na política por meio de uma Associação de Pais e Mestres e que governou com firmeza sua pequena Wasilla. É gente que, como Palin na entrevist, também não saberia responder o que é a doutrina Bush ou que nunca saiu do país (bom, ela foi aos vizinhos México e Canadá e ao Kuwait e Alemanha, mas para os dois últimos restritamente para visitar soldados americanos). Isso não é um demérito. A menos, claro, que você queira governar uma superpotência.
Histrionismo de lado, essa é um preocupação que cresce também na direita pragmática, como lembra o conservador David Brooks em ótimo artigo ontem no "New York Times", que reproduzimos na íntegra abaixo:
PORQUE A EXPERIÊNCIA É IMPORTANTE DAVID BROOKS DO “NEW YORK TIMES”
Discussões filosóficas surgem nos momentos mais inesperados, e agora, no auge desta temporada eleitoral, uma delas vem ganhando força nas fileiras republicanas. A pergunta específica é a seguinte: Sarah Palin é qualificada para ser vice-presidente? A maioria dos conservadores diz que sim, com o argumento de que algo que parece tão bom não poderia estar errado. Mas alguns comentaristas, como George Will, Charles Krauthammer, David Frum e Ross Douthat, discordam, sugerindo, com argumentos distintos, que Palin não está preparada.
A questão começa com uma avaliação de Palin, mas não termina ali. Esta discussão também diz respeito a que qualidades o país precisa em um líder e quais são as fontes últimas da sabedoria.
Houve um tempo em que os conservadores não discutiam esse assunto. O conservadorismo, no passado, era um movimento declaradamente elitista. Os conservadores se opunham ao igualitarismo radical e à destruição dos padrões rígidos. Defendiam a educação clássica, o conhecimento conquistado a duras penas, a experiência e a prudência. A sabedoria era adquirida com a imersão no melhor do que já tinha sido pensado e dito.
Mas sempre houve também uma variedade conservadora distinta, populista, especialmente nos EUA. Para os membros dessa escola, o conhecimento obtido de livros é suspeito, mas o conhecimento prático é respeitado. A cidade é vista como influência corruptora, e as universidades não passam de jardins-de-infância de tolos excessivamente instruídos.
Os elitistas são favoráveis à sofisticação, mas o pessoal do senso comum prefere a simplicidade. Os elitistas apostam na deliberação, mas os populistas são a favor do instinto.
Essa tendência populista foi responsável pelo movimento dos mandatos limitados, baseada na crença de que a permanência no governo destrói o caráter, mas que o contato com a América das bases nos confere uma fundamentação na vida real. E foi essa tendência que produziu Sarah Palin. Palin é o exemplo máximo de rebelde de cidade pequena que se ergueu da América das fronteiras para travar guerra contra o establishment corrupto. Seus seguidores se orgulham da maneira como ela vem suscitando medo, pânico e ódio entre a elite de esquerda. As feministas declaram que ela não é uma mulher de verdade, porque não se enquadra em suas categorias rígidas. Pessoas que nunca estiveram num Wal-Mart a consideram provinciana porque ela nunca passou um verão em Toscana.
Veja a condescendência e o esnobismo que vêm da elite, dizem seus partidários. Vejam a sequência interminável de ataques unilaterais causticantes desferidos pela mídia. É isso o que as elites geram. É por isso que pessoas comuns precisam assumir o comando do país. E há um argumento sério em ação aqui. Na edição da “Weekly Standard” que está nas bancas, Steven Hayward argumenta que os fundadores do país queriam que cidadãos não qualificados ocupassem os cargos mais altos do país. Eles não acreditavam numa classe distinta de executivos profissionais. Queriam pessoas rudes e com raízes, como Palin.
Eu simpatizaria mais com essa visão se não tivesse acabado de viver os últimos oito anos. Pois, se a administração Bush foi qualquer coisa, foi essa atitude anti-establishment posta em prática executiva.
E o problema dessa atitude é que, especialmente em seu primeiro mandato, levou Bush a ser inepto em sua governança. Ficou demonstrado que a governança, a criação e execução da política, não é algo fácil. Ela requer habilidades. Acima de tudo, requer prudência.
O que é a prudência? É a capacidade de apreender o padrão singular de uma situação específica. É a habilidade de absorver o vasto fluxo de informações e discernir a correnteza essencial dos acontecimentos _as coisas que correspondem entre si e aquelas que jamais vão fazê-lo. É a habilidade de praticar deliberações complexas e perceber quais argumentos carregam o maior peso.
Como se adquire prudência? Através da experiência. O líder prudente possui um repertório de fatos, conquistado com o envolvimento pessoal no estudo da história, e é capaz de aplicar esses modelos às circunstâncias atuais para avaliar o que é importante e o que não é, quem pode ser persuadido e quem não pode, o que funcionou antes e o que não funcionou.
É claro que líderes experientes podem cometer erros se suas mentes enrijeceram (caso em pauta: Rumsfeld, Donald), mas o histórico dos líderes não dotados de longa experiência e prudência não é bom. Como observou George Will, os fundadores dos EUA usaram a palavra “experiência” 91 vezes nos Documentos Federalistas. A democracia não é pessoas medianas escolhendo líderes medianos. É pessoas medianas dotadas da sabedoria necessária para escolher os líderes mais preparados.
Sarah Palin possui muitas qualidades. Se quiséssemos alguém para destruir um establishment corrupto, ela seria a mulher indicada. Mas o ato construtivo da governança é outra questão. Ela não se engajou em questões nacionais, não possui um repertório de padrões históricos, e, como o presidente Bush, parece compensar por sua falta de experiência com uma atitude de autoconfiança arrogante e injustificada e uma determinação excessiva.
A idéia de que “o povo” vai enfrentar e destruir “o establishment” é uma fantasia utópica que corrompeu a esquerda antes de corromper a direita. Com certeza a resposta correta à atual crise de autoridade não é jogar fora os padrões de experiência e prudência, mas escolher líderes que possuam essas qualidades e que não tenham a condescendência presunçosa que tanto vem marcando a reação à indicação de Palin, em primeiro lugar. (Tradução de Clara Allain)
Com um leve recuo de McCain, aparentemente as pesquisas americanas rumam para o empate perpétuo que dividiu o país nos últimos dois ciclos eleitorais. Veja a média entre 5 e 16 de setembro compilada pelo Real Clear Politics:
Barack Obama - 45,3%
John McCain - 46,1%
No Colégio Eleitoral, no entanto, o republicano mantém a vantagem na projeção do RCP, enquanto o democrata se dá melhor no Pollster. A diferença principal entre os dois sites é que o Pollster considera "inclinados" a um candidato Estados em que ele aparece com mais de 3 pontos de vantagem, enquanto o RCP só o faz se a margem superar 5 pontos.
RCP:
Obama - 207 (157 relativos a Estados com mais de 10 pontos de vantagem; 50 a Estados com entre 5 e 10 pontos de vantagem)
McCain - 227 (172 relativos a Estados com mais de 10 pontos de vantagem; 55 a Estados com entre 5 e 10 pontos de vantagem)
Indefinidos - 104
Pollster:
Obama - 238 (179 relativos a Estados com mais de 10 pontos de vantagem; 59 a Estados com entre 3 e 10 pontos de vantagem)
McCain - 224 (133 relativos a Estados com mais de 10 pontos de vantagem; 91 a Estados com entre 3 e 10 pontos de vantagem)
(AP) Em comício no Colorado, fã de Palin empunha o objeto mais supervalorizado desta campanha
Em 2004, a eleição presidencial americana foi assolada pelo que os analistas e palpiteiros de plantão batizaram como "cultural wars" ou "cultural divide".
O tal abismo cultural era a distância entre as costas _sobretudo a nordeste_ elitizadas e progressistas contra os "EUA profundos", mais simplórios e conservadores. Bebedores de capuccinos contra devoradores de hambúrgueres (e outros rótulos bem menos lisonjeiros para ambos os lados). Em Nova York, onde eu morava na época como correspondente da Folha e onde o democrata John Kerry venceu com coisa de 70% dos votos (a despeito de sua total falta de carisma), a frase política corrente era a de que "se Bush ganhar de novo, eu me mudo do país", ou, na minha versão preferida, "se Bush ganhar, Nova York terá de ser anexado pelo Canadá". Quando Bush ganhou, obviamente ninguém se mudou nem pediu cidadania canadense, mas o clima de funeral impregnou a cidade.
Neste ano, parecia que tudo isso estava esquecido. Havia já, é claro, a contraposição "elitismo" X "raízes", que numa inversão bizarra de interesses em muito subordinada às tais guerras culturais fez com que os primeiros se tornassem democratas e os últimos, conservadores (para quem se interessa, o analista/jornalista Thomas Frank descreve muito bem o fenômeno em "What is the Matter With Kansas" _prometo post futuro). Mas só.
Até que surgiu Sarah Palin.
Com seu discurso antiaborto, suas evocações religiosas, suas piadas sobre o "excesso de formação" (??) de Barack Obama e suas anedotas familiares, a ex-prefeita de Wasilla e governadora do Alasca ressucitou o fantasma divisor de 2004.
A diferença é que agora há sexo na história.
O fato de a candidata a vice de McCain ter um par de cromossomos X, ironicamente, tem sido usado pela campanha republicana como escudo invisível, como se qualquer crítica a Palin derivasse do sexismo. A oposição, por sua vez, espuma ao vê-la comparada com Hillary Clinton e elevada a paladina das eleitoras-fêmeas.
Mas nenhum grupo debateu Palin tão apaixonadamente como as feministas (e pós-feministas e defensoras dos direitos femininos em geral), que desovam colunas e colunas sobre Sarahcuda desde que seu nome veio à luz. E a penca de filhos (são cinco) da vice republicana é o paradoxo máximo, brandido por quem acha que ela levou o movimento a um novo patamar como a prova derradeira de que equilibrar uma família (extensa) a uma carreira (exigente) é viável. Para essa ala, Palin é impecável nos dois papéis. Já para as feministas envergonhadas pela formação falha da governadora e sua ignorância geopolítica, aquelas que ao verem-na com chance de se tornar presidente quase pedem desculpas por serem mulheres também, a equação só pode ter como resultado uma mãe negligente e uma política despreparada.
Para quem se interessou, eu recomendo o "ultimate fight" feminista: os excelentes artigos de Camille Paglia e de Katha Pollitt. Paglia, pós-feminista e libertária (ela está à direita dos republicanos) mas com simpatias por Obama, acha que Palin é a melhor coisa que aconteceu ao movimento desde Madonna. Pollitt, articulista progressista, blogueira e escritora sem freios na ironia, teme um retrocesso não só nas conquistas como também no imaginário sobre o papel da mulher.
Mas leiam às avessas. Aqui, Camille Paglia para quem não consegue ver qualidades em Palin. Aqui, Katha Pollitt para quem não consegue ver defeitos na pitbull de batom.
Para quem já disse que não entende nada de economia e ontem repetiu que as bases da economia americana continuam "fortes", McCain teria muito a perder com o aprofudamento da crise financeira, certo? É a aposta dos democratas, mas há divergências entre os analistas.
Na revista eletrônica Slate, John Dickerson escreve que nem Obama nem o republicano vão conseguir tirar partido da crise. "Para Obama tirar partido deste momento, tem que convencer os eleitores de que pode mudar a vida deles, e não apenas mostrar que McCain está fora de sintonia com a realidade", diz Dickerson. Ele aponta ainda outro risco: o de que Obama passe uma mensagem de pessimismo, contrariando a retórica de esperança que o levou à vitória nas primárias democratas.
Já Steve Kornacki, do "New York Observer", pensa o oposto. "O timing [da falência de mais uma instituição financeira, desta vez sem socorro do Estado] é um presente para os democratas", escreve ele, nem que seja pelo fato de chamar a atenção da mídia para o estado da economia.
Na média do Real Clear Politics, a vantagem de McCain nas pesquisas de intenção de voto diminuiu hoje para 1,3 pontos, devido principalmente à redução dessa vantagem no tracking diário do Gallup e Rasmussen, de 2 ou 3 para apenas 1 ponto. Veja os números:
Obama - 45%
McCain - 46,3%
No Colégio Eleitoral, no entanto, McCain continua em vantagem (ainda, lembrando, sem os 270 votos necessários para vencer a eleição indireta)
McCain - 227, dos quais 172 considerados "sólidos"
Obama - 207 votos, dos quais 152 considerados sólidos
Na média do Colégio Eleitoral feita pelo Pollster.com, Obama continua em vantagem
A lista de 75 pessoas mais influentes do mundo no século 21 da revista americana "Esquire" de outubro tem, é claro, o presidenciável Barack Obama. Ele ocupa três quartos da página 122. No outro quarto, na mesma página, está o presidente Lula, que recebe texto elogioso da revista. A publicação diz que o Brasil "tem petróleo", "tem muito açúcar", "tem muito álcool de cana-de-açúcar", "e tem Lula". Cita sua popularidade crescente apesar dos escândalos, "que lhe valeram o apelido de Teflon" (nada gruda). "Carismático e resiliente, ele nos lembra de alguém bem familiar: Bill Clinton", diz o texto.
Reprodução da "Esquire" de outubro; foto de divulgação de Obama; foto do presidente Lula de Alex Majioli publicada originalmente pelo "The New York Times" e reproduzida pela revista
O resto da lista? Tem de tudo. O empresário Rupert Murdoch, o cineasta Paul Thomas Anderson, o primeiro-ministro russo Vladimir Putin, o jogador de beisebol Alex Rodrigues, o estilista Marc Jacobs, o ator Will Smith, o casal Bill e Hillary Clinton... John McCain não consta da lista da revista, que, apesar de falar pouco de política, quando o faz demonstra inclinação pró-democrata.
Mesmo sem a participação especial do candidato Barack Obama, o humorístico Saturday Night Live roubou a cena no final de semana com a estréia da paródia de Sarah Palin _feita, é claro, por Tina Fey, que é bem parecida com ela. Ao lado de "Palin", a Hillary Clinton da atriz Amy Poehler. Está sensacional!
Dois dos diálogos:
HILLARY CLINTON - Eu acredito que a diplomacia deve ser o fundamento de qualquer política internacional SARAH PALIN - E eu consigo ver a Rússia da minha casa!
HILLARY CLINTON - Acredito que o aquecimento global é causado pelo homem SARAH PALIN - E eu acredito que é só Deus nos abraçando mais de perto
Faltando sete semanas e um dia para a eleição, McCain mantém a vantagem de dois pontos na média de pesquisas do Real Clear Politics, compilada entre 5 de setembro e ontem, e de 20 votos na projeção do Colégio Eleitoral.
Barack Obama - 45,3%
John McCain - 47,3%
No Colégio, são necessários 270 votos para vencer. O RCP indica que, segundo pesquisas recentes, Indiana, Flórida e Geórgia passaram de indefinidos para inclinados a McCain. O site considera como votos "garantidos" ou "firmes" aqueles referentes a Estados onde a vantagem do candidato é superior a dez pontos; como "tendência" onde ela fica entre cinco e dez pontos e como indefinidos Estado onde nenhum candidato obtém margem acima de cinco pontos.
Barack Obama - 207 (157 "garantidos" e 50 "tendência")
John McCain - 227 (172 "garantidos" e 55 "tendência")
Indefinidos - 104 (os Estados indefinidos são: Ohio, Pensilvânia, Michigan, Virgínia, Minesotta, Colorado, Novo México, New Hampshire e Nevada)
Já no Pollster, Obama continua à frente:
Barack Obama - 238 (179 "garantidos" e 59 "tendência")
John McCain - 224 (133 "garantidos" e 91 "tendência")
Indefinidos - 76 (Ohio, Virgínia, Michigan, Colorado, Novo México, New Hampshire, Montana e Nevada_ aqui eles consideram Pensilvânia e Minnesota inclinados a Obama, enquanto o RCP coloca Montana na conta de McCain, e não dos indefinidos)
Nem tudo são más notícias para os democratas. O avanço republicano fez aumentar a arrecadação de contribuições para a campanha de Obama. Ele depende mais dessas doações porque, numa decisão polêmica, abriu mão das verbas oficiais (o que implicaria limitar seus gastos de campanha).
O democrata bateu o recorde de arrecadação em agosto, com US$ 66 milhões. Boa parte dos doadores _500 mil_ deu dinheiro à campanha presidencial democrata pela primeira vez, depois do discurso de Obama na Convenção Nacional Democrata, no final do mês. Como o limite da doação individual é de US$ 2.300, e as pessoas costumam doar pequenas quantias, elas podem fazer novas doações nas seis semanas que faltam para 4 de novembro.
Pelas contas do Real Clear Politics, McCain passa Obama nas projeções para o Colégio Eleitoral pela primeira vez. Mas atenção _sem que nenhum dos dois tenha os 270 garantidos para vencer a votação indireta que realmente define o ocupante da Casa Branca. Veja os números:
McCain - 227 votos, dos quais 172 considerados "sólidos"
Obama - 207 votos, dos quais 157 sólidos
Indefinidos - 104
Na médias das pesquisas do voto direto, a diferença de McCain sobre o Obama está na margem de erro e não teve alteração significativa, segundo o Real Clear
McCain - 47,5%
Obama - 45,2%
Já segundo a estimativa feita pelo site Pollster.com, Obama continua à frente no Colégio Eleitoral
Eu falava ontem do público dos comícios de McCain, da gente jovem que se identifica com Sarah Palin, e o fenômeno está belamente descrito abaixo, em texto que um dos enviados especiais aos EUA, Fernando Rodrigues, publica hoje na Folha de S. Paulo. Vai o início e o link para quem quiser continuar a leitura.
FERNANDO RODRIGUES ENVIADO ESPECIAL A FAIRFAX
As caixas acústicas gigantes tocam "The Eye of the Tiger" a todo volume. É o sucesso pop de 1982 da banda Survivor, tema de vários filmes da série "Rocky, um lutador". John McCain, ele próprio um sobrevivente político nesta eleição, sobe ao palanque ao som dos acordes épicos do início da música. Traz junto sua mulher, Cindy, mais Sarah Palin e seu marido, o silencioso Todd. "Paramos de contar o público quando passou de 20 mil", diz um policial apressado durante o evento. A mídia local estimou em até 23 mil o número de presentes na última quarta-feira no parque Van Dycke, em Fairfax, cidade no norte do Estado da Virgínia até pouco tempo um reduto no qual quem avançava eram os democratas. O candidato republicano a presidente tem visto um espetáculo do crescimento nos seus comícios. Já havia reunido 10 mil pessoas em Colorado Springs (no Colorado), na semana retrasada. No último dia 9, foram outras 7.000 em Lancaster (Pensilvânia). Os 23 mil da Virgínia estabeleceram um recorde para uma campanha acostumada a um clima tendendo à narcolepsia, dada a falta de entusiasmo quando o senador de 72 anos aparecia em frente aos militantes. O comício de Fairfax foi outra história. O clima ajudou, com uma quarta-feira ensolarada e céu azul, típico desta época do ano na região. O evento começaria às 11h, mas às 8h30 já havia filas de quase um quilômetro para entrar.
Frank Rich é o melhor colunista do "New York Times" _o mais presciente, o mais profundo. Foi um dos raros na grande mídia americana que não se deixaram cegar pelo patriotismo pós-11 de Setembro, e alertou desde o início para a mentira que justificou, aliás com a ajuda de uma repórter do próprio jornal (Judith Miller), a invasão do Iraque _a de que Saddam teria armas de destruição em massa e estaria ligado aos ataques terroristas nos EUA. Sarah Palin repetiu essa mentira (a da ligação do ditador iraquiano com o 11 de Setembro) em uma das entrevistas que deu na quinta e na sexta à TV americana.
Pois Rich hoje tem um artigo ainda melhor do que a sua média. Ele vê um McCain enfraquecido e descreve uma entourage em torno de Palin perigosíssima (com a gente mais belicosa, cegamente ideológica e macartista que pode haver no Partido Republicano). O colunista disseca o discurso em que a vice de McCain aceitou a candidatura, na Convenção Nacional Republicana, e encontra coisas do arco da velha. Não percam.
O blog Folha na Sucessão de Bush coloca uma lupa na eleição presidencial nos EUA e magnifica a cobertura da Folha. Com os repórteres Sérgio Dávila, Fernando Rodrigues, Daniel Bergamasco e Andrea Murta em campo e os comentários da editora de Mundo da Folha, Claudia Antunes, e da editora-adjunta, Luciana Coelho, traz bastidores, discussões e curiosidades que ajudam a explicar este momento de transição na história americana.
Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.